A Ascensão do Cacau Brasileiro: Inovação, Qualidade e Sustentabilidade na Produção

A cultura do cacau no Brasil encontra-se em um período de grande efervescência, impulsionada por um mercado internacional aquecido e uma cadeia produtiva robusta que interliga o cultivo, a pesquisa, o processamento e a indústria de chocolates. Com uma área de cultivo que ultrapassa 620 mil hectares, predominantly em sistemas agroflorestais, a atividade envolve mais de 93 mil propriedades rurais e aproximadamente 95 mil produtores, majoritariamente agricultores familiares. Em 2025, o setor alcançou um valor bruto de produção de cerca de US$ 2,1 bilhões, com mais de 210 mil toneladas de amêndoas, posicionando o Brasil entre os maiores produtores globais.
Thiago Guedes Viana, diretor da Ceplac, enfatiza que o crescimento do cacau brasileiro é real, mas exige planejamento estratégico que transcenda o mero aumento de volume. A competitividade, segundo ele, deve ser fundamentada na combinação equilibrada de produtividade, excelência, respeito ao meio ambiente e geração de renda. O Plano Inova Cacau 2030 ambiciona superar a marca de 400 mil toneladas anuais até o final da década, um objetivo que será atingido por meio da otimização das lavouras existentes, renovação de áreas e expansão da produção em regiões com condições favoráveis. A valorização global do cacau estimula investimentos, mas também exige prudência diante das flutuações do mercado. A Ceplac identifica sete pilares para fortalecer a competitividade: conservação dos biomas, melhoria da produtividade via manejo e assistência técnica, redução de perdas pós-colheita, oferta de amêndoas de qualidade certificada, fortalecimento do cooperativismo, ampliação do acesso a crédito e intensificação da pesquisa.
A cadeia produtiva brasileira tem demonstrado avanços significativos na agregação de valor. Em 2025, o país exportou aproximadamente 36 mil toneladas de chocolate e 52 mil toneladas de subprodutos do cacau para 136 nações. O mercado interno valoriza cada vez mais a origem e a qualidade, com quatro indicações geográficas e mais de 300 marcas de chocolate artesanal, conforme exibido no último Chocolat Festival. O cacau nacional tem recebido reconhecimento internacional por suas amêndoas de alta qualidade, atribuído à sua diversidade genética, condições climáticas ideais, sistemas agroflorestais e progresso técnico-científico.
A pesquisa genética tem sido um dos pilares da Ceplac, com um vasto acervo de recursos genéticos e o desenvolvimento de novas variedades que combinam alta produtividade, regularidade na colheita, adaptação regional, qualidade das amêndoas, resiliência às mudanças climáticas e maior tolerância a doenças. A genética eleva o potencial da lavoura, mas seu sucesso depende de um ambiente adequado e práticas culturais corretas. No combate à vassoura-de-bruxa, a pesquisa identificou materiais com diferentes níveis de resistência. A prevenção da monilíase, uma doença de origem colombiana, também é foco de estudos, com a avaliação de clones em países como Costa Rica e Equador, visando reunir informações antes de qualquer recomendação de plantio em larga escala. A vigilância fitossanitária rigorosa é crucial para proteger a cacauicultura nacional.
A expansão do cultivo de cacau para novas áreas, incluindo regiões irrigadas, representa uma oportunidade, mas deve ser acompanhada de uma avaliação técnica criteriosa. Fatores como clima, solo, disponibilidade hídrica, sombreamento e pressão de doenças variam regionalmente, exigindo que materiais genéticos e sistemas de produção sejam testados localmente, com a colaboração de instituições de pesquisa, assistência técnica e produtores. Em áreas irrigadas, a análise deve considerar a aptidão do terreno, a qualidade da água, o dimensionamento da irrigação, a nutrição das plantas e os custos operacionais. Os sistemas agroflorestais, que já representam mais de 80% da área cultivada, estão no centro da estratégia de sustentabilidade. Projetos como o Cacau Brasil Agrofloresta e o Cabruca, com investimentos que somam mais de US$ 50 milhões, visam fortalecer a cacauicultura agroflorestal, recuperando áreas degradadas, promovendo a inovação tecnológica e beneficiando milhares de pessoas no meio rural, além de gerar impactos ambientais positivos, como a mitigação de milhões de toneladas de CO₂.
A qualidade do cacau não se restringe ao campo; as etapas de fermentação e secagem pós-colheita são cruciais para o desenvolvimento de sabores e aromas desejáveis, evitando defeitos que desvalorizam as amêndoas. Para acessar mercados de cacau fino, os produtores precisam garantir uma qualidade consistente entre os lotes, o que envolve colheita no ponto certo, separação de materiais impróprios, controle rigoroso da fermentação e secagem, prevenção de contaminações e rastreabilidade. O cooperativismo desempenha um papel fundamental ao permitir o compartilhamento de infraestruturas, a padronização da produção e o aumento do poder de negociação. A agregação de valor exige método, organização e acesso ao mercado, com o preço final dependendo da qualidade entregue e das condições comerciais negociadas.
Para quem planeja renovar ou expandir o cacaual, um diagnóstico técnico e econômico da propriedade é o primeiro passo. Em áreas de baixa produtividade, é essencial identificar as causas antes de definir a intervenção, avaliando a condição das plantas, a incidência de doenças, a fertilidade do solo, o sombreamento, a disponibilidade de água e a infraestrutura. A recuperação gradual ou a renovação planejada serão escolhidas conforme a situação. Para novos plantios, a seleção de materiais genéticos de procedência conhecida e adaptados à região é vital, assim como a análise do solo, da água, do sistema de cultivo e dos investimentos necessários. O planejamento deve incluir mão de obra, controle fitossanitário, colheita, processamento e comercialização, pois a rentabilidade é o que sustenta o negócio. A agregação de valor deve ser pensada desde o início, com fermentação e secagem adequadas, separação de lotes e rastreabilidade, ampliando o acesso a compradores que valorizam a qualidade e a identidade do produto. Além das amêndoas, há inúmeras oportunidades de transformação local em chocolates, nibs, licores, manteigas, méis, polpas, geleias e outros produtos, fortalecendo a economia local e garantindo que uma parcela maior do valor gerado permaneça com os produtores e suas comunidades.
